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Sexta-feira, 10 de Setembro de 2010

Francisco Lobato > "O menino e o mar"

UP MAGAZINE (Leitores: cerca de 1 milhão por mês. Revista de bordo da TAP)

Talento em português

Francisco Lobato - O menino e o mar

Texto: Maria Ventura

 

Link: http://www.upmagazine-tap.com/2010/09/o-menino-e-o-mar/

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2010/09/01

 

Seguiu as pisadas dos seus “egrégios avós” e fez-se ao mar. Francisco Lobato tem 25 anos, uma vontade do tamanho do universo e é o único velejador português a competir em modo solitário. E dos melhores do mundo.

 

 

Não fossem as reportagens na imprensa – que habitualmente pouco ou nenhum destaque dão a desportos que não envolvam duas equipas de 11 jogadores aos chutos a uma bola – e os grupos de apoio nas redes sociais, onde vem escarrapachada a cara do navegador solitário português, e dificilmente reconheceríamos Francisco Lobato entre os muitos velejadores que, na manhã solarenga, se passeavam na Doca de Belém. Bruno Coelho, instrutor da Associação Naval de Lisboa, percebe que é do único português a vencer a regata transatlântica Transat 6,5 que estamos à espera e apressa-se a elogiar o antigo pupilo: “Deu para perceber desde cedo que ele ia longe. Tinha garra, era metódico, focado e muito determinado”, recorda.

Tímido e recatado, Francisco não gosta de dar nas vistas. Por isso, quando o fotógrafo da UP lhe pede para acender um flash de aviso e posar ao estilo Estátua da Liberdade com o Padrão dos Descobrimentos como pano de fundo, o atleta começa por torcer o nariz. Quando, por fim, acede, é inevitável dar pela sua presença: eis Francisco Lobato, velejador profissional.

 

Para apresentar condignamente este homem é preciso recorrer a clichés. É que há lugares comuns que, por muito que tentemos, não conseguimos contornar: ir à Torre Eiffel quando vamos a Paris, comer um pastel de Belém em Lisboa, chamar a Nova Iorque a “grande maçã”. Neste caso é preciso ir buscar o chavão dos Descobrimentos portugueses. Não é saudosismo, acreditem. É forçoso. Passados cinco séculos sobre as proezas marítimas lusitanas que deram a Portugal um importante lugar na história mundial, um rapaz lembrou-se que também podia marcar a diferença no palmarés náutico português e aventurou-se num registo inexplorado até à data: o solitário.

 

Um homem singular

O ditado popular “filho de peixe sabe nadar” parece que foi inventado para ele. Os avós e o pai sempre estiveram ligados à vela, por isso os barcos e o mar desde cedo fazem parte da vida de Francisco. Era ainda um bebé de meses quando foi de barco até Gibraltar e, em criança, passava as férias de Verão a bordo do veleiro dos avós, navegando pelo Atlântico e pelo Mediterrâneo. “Aos sete anos inscrevi-me na escola de vela da Associação Naval de Lisboa. Comecei pela classe tradicional, o optimist.” Foi o início da sua epopeia. Ao optimist, que é um barco de iniciação, seguiram-se os lasers e, em ambas as classes, Francisco foi conquistando títulos atrás de títulos em regatas nacionais, europeias e mundiais. As medalhas sucediam-se e estava chegada a hora de integrar a equipa olímpica nacional de vela. “Decidi enveredar pelo solitário em 2004. Estava prestes a começar a campanha para os Jogos Olímpicos de Pequim de 2008, mas já andava a remoer esta ideia de ser velejador solitário há algum tempo. A aventura, a adrenalina, o risco, os barcos… tudo exercia sobre mim um fascínio tal que decidi que era hora de avançar.” Mandou às urtigas os Jogos Olímpicos e mergulhou num admirável mundo novo.

 

Claro que o salto não é fácil, especialmente “porque os custos em solitário são muito maiores”. Barcos mais caros, estágios no estrangeiro, equipamentos sofisticados… contas muito complicadas para um estudante de Engenharia e Arquitectura Naval do Instituto Superior Técnico de Lisboa. “Comecei com um barco emprestado e o primeiro que comprei foi com um empréstimo. Felizmente consegui bons resultados de início, o que me deu visibilidade e atraiu os tão desejados patrocinadores – uma engrenagem fundamental nestas andanças.” Com a peça que faltava encaixada no puzzle, Francisco podia começar a esquecer-se das contas e a centrar-se nos resultados. Que não se fizeram tardar. De lá para cá, entre muitos outros, alcançou os seguintes feitos a solo: em 2006, 2007 e 2008 foi o número 1 do ranking mundial na classe mini, em 2007 estreou-se na Transat 6,50 (regata transatlântica a solo), que acabou em 9º lugar e, em 2008, ganhou a grande regata Les Sables – Açores – Les Sables competindo num barco de série contra protótipos, que são mais rápidos, e foi considerado “Velejador do Ano” pelo site da Sea Sail Surf. Em 2009 venceu a Transat 6,50.

 

Há mar e mar

Para se ser velejador nesta categoria é condição sine qua non apreciar a solidão. Francisco aprendeu a gostar desse aspecto da sua profissão. “Quando o mar está mais calmo, podemos olhar em redor. Há muita paz, não há ruído, não somos bombardeados com informação, há tempo para pensar na vida, nos nossos objectivos.” Mas nem tudo é um mar de rosas, e o cansaço é o reverso da medalha. “É preciso estar sempre atento ao desempenho do barco. Numa regata transatlântica podemos dormir um pouco mais, mas numa como a Solitaire du Figaro, em que o ritmo é mais intenso, o tempo é precioso e, como os barcos andam muito próximos, é preciso estar sempre alerta para evitar choques ou perder segundos preciosos.

 

Gerir os sonos é mesmo complicado, às vezes até temos alucinações.” Em regata, Francisco não fica só a dever horas à cama, fica igualmente em dívida para com o estômago. Isto porque a comida é desidratada e vem em pacotes: “Ao fim de algum tempo, já não a posso ver à frente. Tenho tantas, mas tantas, saudades de comidinha caseira no mar”. Quando está em modo cruzeiro, a sua cozinha é basicamente uma chaleira e uma panela, que só servem para ferver água. “Nos primeiros dias ainda dá para levar alguns frescos, como fruta e pão. Mas tudo o resto é peso desnecessário e isso faz-nos perder segundos preciosos da corrida.” Sacrifícios, porém, não são estranhos a Francisco, que cedo compreendeu que para singrar no seu meio era preciso fazer cedências. “Tive de aprender a disciplinar-me e a aproveitar o tempo o melhor possível, procurando equilibrar a frequência das aulas e os períodos de estudo com o tempo dedicado à vela. Saídas à noite, com amigos, só de vez em quando, e sem excessos, para não prejudicar a forma física conseguida no treino.”

 

Diário de bordo

Provavelmente Francisco não se importaria que as suas viagens fossem um pouco como as fábulas de La Fontaine, onde os animais falam pelos cotovelos. “As maiores distracções quando estou em prova são os golfinhos, baleias, peixes e pássaros que se aproximam do barco. A música também ajuda. De resto, como tenho de puxar pelo barco e há sempre reparações para fazer sobra pouco tempo. Nem ler consigo.”

Não sendo exactamente fábulas, há dias em que as jornadas de Francisco Lobato puxam mais aos filmes de acção. É que velejar pode ser arriscado e a solo os riscos duplicam. O atleta teve a sua dose quando, na Transat de 2007, o barco se virou no Golfo da Biscaia. “Já ia em modo de sobrevivência, as condições eram extremas e só pensava em chegar à meta. O vento soprava a cerca de 120 km/h e as vagas rondavam os dez metros. Caí ao mar e perdi o controlo da situação Felizmente uma onda virou de novo o barco. Veio o helicóptero de socorro, mas eu sabia que se abandonasse a embarcação, não só ficava sem ela, como perdia a corrida. Passei a noite a tirar água do barco e a situação lá se resolveu.” É em momentos como este que se consolida a convicção: “Tenho muito respeito pelo mar, não é algo que se possa subestimar”.

 

 

Sem referências portuguesas nesta modalidade de vela, Francisco teve de ir à cata de inspiração noutras bandas. “Li muito sobre os primeiros velejadores solitários dos últimos 200 anos e todos eles me serviram de modelo. Mas há dois que tenho como referência: o francês Michael Desjoyeaux e a inglesa Ellen MacArthur. Ela porque é muito nova e já tem um palmarés impressionante. Ele pelos fabulosos resultados que foi alcançando ao longo dos anos – é o único velejador que conseguiu ganhar mais do que uma vez a regata Vendée Globe, que faz a volta ao mundo”.

Neste momento as suas atenções estão viradas para a classe Figaro Bénetéau e para a regata Solitaire du Figaro onde se estreou em Agosto, com o novo veleiro ROFF/Tempo-Team – um monotipo com 10,15 metros de comprimento, 3050 kg, e uma área vélica entre 66 e 121 metros quadrados.

No horizonte, vislumbra-se a Vendée Globe, que está para a vela em solitário como o Everest está para o alpinismo. Antes de lá chegar é preciso escalar outras montanhas. Por isso a história de Francisco Lobato não acaba aqui. A letra de uma música de Jorge Palma antecipa a continuação da saga: “Enquanto houver ventos e mar a gente não vai parar”.

 

www.franciscolobato.com

 

por Maria Ventura

publicado por APCUNHA às 15:42
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